Faz agora anos que no dia de hoje (sexta-feira do fim-de-semana anterior ao da Festa), Valpaços, fervilhava de emoção e agitação. Iniciavam-se as Festas da Vila e do Concelho, assim designadas, em honra de Nossa Senhora da Saúde.
A Festa abria precisamente na sexta-feira anterior à Festa de Vilarandelo, normalmente com um grande evento musical que atraia visitantes de toda a região, aproveitando também os muitos imigrantes que ainda se encontram por cá, ao contrário do que actualmente acontece, dado que a maior parte dos imigrantes vai-se embora neste fim-de-semana e como tal, na terça-feira o espectáculo de abertura nunca terá a gente que poderia ter, como antes acontecia quando as Festas se iniciavam na sexta-feira anterior.
Seguia-se um fim-de-semana com apenas actividades de carácter religioso, para não colidir com as Festas de Vilarandelo. Segunda-feira começava então a semana da Festa de Valpaços. Hoje, já não se pode falar em “semana da Festa”.
Honra seja feita aos Valpacenses, homens e mulheres, oriundos da sociedade civil, que durante anos e anos, contribuíram com o seu trabalho e o seu saber para enraizar na região a fama que as Festas de Valpaços granjearam. Vinha povo de todo lado, ver as famosas orquestras espanholas, as corridas de motas, a perícia automóvel que se realizava ao Domingo à tarde e que lamentavelmente terminou, para não falar no concerto de abertura que atraia povo aos magotes até Valpaços.
A verdade é que hoje a população não se organiza como antigamente. Perdeu-se o bairrismo e o dinamismo típico que o amor à camisola proporcionava. Tal também se deve à sociedade mais individualista e menos colectiva em que hoje vivemos e que em certa medida nos faz regredir em vez de evoluir.
Valpaços encontra-se numa encruzilhada difícil. A sociedade civil está enfraquecida, esvaziada, deprimente e sem qualquer iniciativa. Os políticos, tem que reflectir sobre esta problemática. Será preferível dar o impulso necessário para que a sociedade civil se volte a movimentar e a organizar ou ver a terra a definhar?
Há uns anos atrás, lembro-me de colaborar com outros Valpacenses, através do Motor Clube de Valpaços na organização do circuito motorizado e da perícia automóvel que entretanto também deixou de se realizar e tanta falta faz ao Domingo, como era tradição.
O Motor Clube de Valpaços, acabou!
Há uns anos atrás, realizava-se na semana da Festa um Festival de Folclore que atraia imensa gente a Valpaços. Tal iniciativa estava já consolidada e era organizada pelo saudoso Grupo Cultural de Valpaços.
O Grupo Cultural de Valpaços acabou!
Os Bombeiros estão a arder em lume brando e passam neste momento por graves dificuldades financeiras.
Há uns anos atrás também havia uma oposição pujante, com garra e iniciativa. Num Concelho como Valpaços uma oposição forte e respeitável é além de saudável mais do que desejável.
Tudo isto são sinais do enfraquecimento da sociedade civil Valpacense.
Voltando às Festas da cidade, vou deixar a minha opinião e uma ou outra ideia que penso poderá também ajudar a combater a desertificação que neste momento assola as colectividades Valpacenses.
O que pensa a Autarquia das Festas da cidade?
Realizam-se apenas para que se cumpra a tradição ou constituem-se como um evento que visa dinamizar a cidade em termos económicos, culturais e sociais?
Esta questão faz toda a diferença. Porque se o Município apenas realiza a Festa para cumprir a tradição e porque os Valpacenses a deixaram de fazer, então, a Festa até pode começar na quarta-feira, com a Procissão da Senhora da Saúde até à Igreja Matriz e com o Concerto da Banda logo a seguir no Jardim Público.
Mas o que se vê nos restantes Municípios é que as Festas, organizadas pelas respectivas Autarquias, constituem-se como pólos de atracção e dinamizam económica e socialmente as respectivas comunidades. Neste sentido, eu penso, que o Município de Valpaços entende que a Festa de Valpaços não serve apenas para cumprir calendário nem tradição.
Vi imensos Valpacenses a passear nas Festas de Mirandela. Quantos Mirandelenses e Flavienses virão à Festa Valpaços?
Sendo o Município o principal promotor e organizador das Festas da cidade, a sociedade civil deveria também ser chamada a participar e a colaborar. Desde logo as instituições que têm saber e experiência na organização de eventos que em minha opinião devem continuar a existir na semana da Festa. Essa é também uma boa forma de dinamizar as próprias colectividades e envolver as pessoas na organização de uma Festa que é de todos. Compete ao Município dar esse passo. Chamar os Valpacenses e envolve-los na organização da Festa, como de certa forma acontece na organização da Feira do Folar.
Isto acontecia quando o Grupo Cultural organizava o festival de Folclore. Acontecia quando o Motor Clube de Valpaços organizava os desportos sobre rodas. Acontecia quando o Clube de Tiro Caça e Pesca organizava o torneio de tiro aos pratos. Acontece ainda hoje na organização da prova de Motocross organizada pelo Moto Clube “Os Valpacenses”, único exemplo do que defendo.
Assim sendo, uma noite para a Juventude, deveria ter lugar no cartaz da Festa. Um festival de bandas rock, organizado pelas próprias bandas rock da nossa terra. Este ano tal evento, apesar de apoiado pela autarquia, ficou incompreensivelmente fora do cartaz da Festa. Valpaços sempre teve tradição musical. Sempre teve jovens que gostaram de se organizar em conjuntos e grupos musicais. Os jovens já manifestaram vontade de realizar esse festival e merecem realiza-lo.
Ainda me lembro quando em 1989 participei na organização da I Mostra de Música Moderna do Alto Tâmega. Vieram bandas de Chaves, Boticas e Valpaços. A iniciativa não se repetiu por falta de apoio. Bem sei o quanto custa à juventude que gosta de tocar e não tem apoio nem hipótese de o fazer. Por lá passei e bem me lembro das dificuldades e da frustração que isso acarreta.
A iniciativa que se realiza na segunda-feira deve repetir-se e ser previamente programada para obter o sucesso que merece em próximas edições da Festa.
O Festival de Folclore deve regressar numa das noites. Há outros Ranchos e Grupos de Folclore no Concelho, subsidiados pela Autarquia.
Um Festival de Bandas de Música é também bem-vindo, com a prata da casa. Há 5 Bandas de Música no Concelho. As Direcções das próprias Bandas podem organizar tal evento.
O Torneio de Tiro aos Pratos deve ser ressuscitado e organizado pelo Clube de Tiro, Caça e Pesca de Valpaços. Há muito caçador a amante de tal modalidade no Concelho.
A prova de perícia automóvel deve regressar ao Domingo. Há Valpacenses que se disponibilizam a organizar tal evento, nos quais me incluo. Muita gente quer a prova de perícia novamente no Domingo à tarde. Era um ex-líbris da Festa de Valpaços.
Dito isto, apenas me falta dizer que se de facto queremos marcar a diferença e atrair pessoas à nossa terra, o concerto de abertura da Festa deve realizar-se na tal sexta-feira antes da Festa de Vilarandelo como sempre aconteceu e ter um nome sonante do panorama musical Português. Custa dinheiro, pois custa, mas trás milhares a Valpaços que nessa noite dinamizarão economicamente a cidade. Também muitos imigrantes ainda cá estão ao contrário do que sucederá na terça-feira.
No Sábado, a tradição é o que era. Faça-se o circuito motorizado, a Procissão, o arraial e bote-se fogo.
Organizar a Festa de Valpaços nestes moldes, apenas necessita de diálogo. Dialogo entre o Município e as instituições, que deverão ser convocadas para participarem na organização das Festas de Valpaços. Afinal, essa é uma via para manter as instituições vivas e ao mesmo tempo realizar uma semana de Festa com o espírito que outrora se viveu e que tanto sucesso conferiu à Festa de Valpaços.
A Festa de Valpaços, não era apenas, mais uma Festa!